O magma injetado em suas veias a consumia de dentro para fora. Todo o seu corpo convertia-se em uma camada sólida e inescapável de amargura e rancor. Seus olhos eram chamas rubras raivosas crescentes, o corpo inteiro um poço de chamas.
Curvou-se sobre a terra pétrea. As pedras aderiam à sua pele como o ódio adere à escuridão e, sem se importar com a dor, com o sangue que escorria de suas mãos, começou a socar o chão.
Uma vez. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis.
Em um dado momento, perdeu a conta.
Parou um instante, inalou o ar carregado de enxofre, esperando que ele pudesse acelerar sua morte, então observou à sua volta. Para onde quer que olhasse, só enxergava cinzas e um mundo escuro. As chamas consumiam sua pele, mas enquanto esta desaparecia, ela sequer parecia estar consciente da dor.
Cansou-se. O peito subia e descia em um ritmo frenético e, inspirando o máximo de ar que podia, preparou-se para a próxima onda de autodestruição. Não bastava doer respirar. Era necessário que seus punhos doessem tanto a ponto de sufocar a dor de olhar para o mundo à sua volta.
Um mundo em chamas.
Este mundo está cheio de podridão, pensou, anestesiada.
Ela se curvou e, com toda a fúria que foi capaz de reunir em seus punhos, voltou a socar o chão. Socou-o, vendo-o saltar com o ódio contido em seus olhos angustiados, olhos de onde ela segurava suas lágrimas afogadas. Não se permitiria chorar. Pedras voavam, o chão rachava, e ela continuava socando-o, alheia ao seu próprio desaparecimento.
Cada soco era como uma explosão em seus ouvidos. Uma explosão no mundo.
Não havia limite em sua dor. Não havia limite em sua fúria. E pensou, com uma certeza raivosa, que se não podia queimar o mundo, então queimaria a si mesma.
Quando finalmente parou, recolheu os braços. As pedras deslizaram de suas mãos, e, em seu lugar, ela encarou sua pele: eram apenas ossos e pele em carne viva, de onde escorriam grossos filetes de sangue.
Ela fechou os olhos, tentando não ceder à vertigem, tentando não ceder à dor.
Dor. Dor. Dor.
Ela fechou os olhos e finalmente gritou, mas o som que escapou de sua garganta era tudo, menos humano.

