Escrita enquanto performance e o cerceamento do direito ao silêncio
Redes sociais, performance e a lenta transformação do escritor em produto.
Isto tem sido cada vez mais comum: você abre um vídeo no TikTok, dentro da bolhinha literária, e vê um escritor gravando a si mesmo enquanto escreve seu livro.
No Instagram, a situação não é muito diferente. No feed de um escritor, chama atenção um tipo de vídeo específico: ele está numa cadeira confortável, escrevendo em sua mesa organizada, com uma estante de fundo cheia de livros e seu notebook aberto no arquivo do seu projeto.
O vídeo traz uma estética atraente, cuidadosamente montada e, ao fundo, a voz do escritor segue narrando seu processo de escrita.
Quase como se fosse um cenário meticulosamente montado.
Na maioria das vezes, provavelmente é.
1. O escritor virou vitrine
A narrativa é clara: a imagem do escritor mudou.
Se antes imaginávamos um escritor como um sujeito entocado, cercado por papéis, cadernos, canetas e o mais completo silêncio, hoje, este cenário morreu completamente.
Porque agora nós temos algo diferente.
Temos algoritmo. Redes sociais. Telas.
E em um momento em que o ambiente digital se tornou parte da nossa rotina diária e se consolidou como a porta de entrada para empregos, networking e outras oportunidades, utilizar as mídias sociais deixou de ser uma simples opção.
Agora, é praticamente uma obrigação.
Nesta era moderna, uma verdade dura grita em alto e bom tom: não há escritor que sobreviva distante do meio digital.
Não se ele quiser ser lido.
2. O escritor moderno também virou influenciador
O escritor do século XXI já não é mais apenas um meticuloso carpinteiro da escrita. Ele é um influenciador literário, e se quiser ser lido, terá de ser visto.
Esta lógica, apesar de cruel, reflete uma tendência do mercado editorial de valorizar — e publicar — principalmente escritores que possuem milhares de seguidores e grande engajamento em suas redes sociais. Na prática, isso significa um público leitor já previamente formado e menos riscos no processo de publicação.
E eu sei, eu sei.
Apesar de certos avanços, nós ainda não temos um público leitor que confia plenamente na qualidade da própria literatura brasileira contemporânea, ou a acha interessante o bastante para se arriscar a comprar nossos livros.
É sempre mais seguro beber das águas de fora.
E o escritor deve estar sempre ativo nas redes sociais, interagindo, fazendo trocas, produzindo conteúdo e construindo sua comunidade.
Porque, afinal, só assim será visto.
Só assim seus livros poderão ser encontrados. Lidos. Debatidos…
Já sabemos. Nós ouvimos isso diariamente.
Não é preciso repetir.
Então, fica apenas uma pergunta:
Na prática, o que isso custa ao escritor?
3. A escrita virou performance
Porque, no fim das contas, não é apenas o livro que é tratado como produto.
O escritor, em si, também se tornou um produto.
Já se foi o tempo em que a escrita por si só sustentava a sua carreira. Hoje em dia, é preciso darmos a cara a tapa.
Não raro, somos nós quem editamos o texto, fazemos a capa, divulgamos o livro, gravamos vídeos, alimentamos algoritmos, entre uma infinidade de outras coisas.
E coitado de quem, por forças maiores — traduz-se: orçamento curto —, faz tudo sozinho.
O mais triste de tudo isso é perceber que, sem presença digital, nosso trabalho não vai muito longe.
A sensação que tenho é que a escrita se transformou em uma espécie de espetáculo.
Parece que precisamos performar.
Performar para atrair seguidores.
Performar para atrair futuros leitores.
Performar para atrairmos editoras tradicionais que poderiam se interessar em publicar nossos livros no futuro, porque, nos dias de hoje, nossa popularidade na internet importa tanto ou tão mais do que nossos livros em si.
4. O bastidor da performance
No final das contas, o processo de escrita deixou de ser uma experiência individual e introspectiva para se tornar uma espécie de janela para a vida privada do escritor. As pessoas querem saber sobre ele.
Onde dorme? O que lê? O que faz? Com o que trabalha? Como é o espaço em que escreve?
Espera-se que o escritor dê acesso à sua vida pessoal, ao seu espaço físico, à sua rotina, aos seus bastidores e até a detalhes pessoais de sua vida, tudo isso sob a lógica da conexão com o espectador.
Especialistas em marketing entenderão isso melhor do que eu.
E esta lógica, a princípio, faz total sentido.
Quem nunca se empolgou ao assistir a um vídeo de um escritor trazendo os seus bastidores de escrita? Eu já. E comecei a seguir pessoas por isso.
É relativamente fácil você se conectar com alguém que parece ter uma vida comum, parecida com a sua. Alguém que está passando pelo mesmo processo que você. Alguém que finalmente parece entender as dores e alegrias de escrever um livro.
Mas, falando por mim, quando decidi compartilhar o meu processo de escrita, minhas expectativas caíram por terra.
Porque percebi que isso não se resume a eu simplesmente gravar um vídeo de mim mesma escrevendo (ou melhor, minhas mãos, porque simplesmente não me imagino aparecendo em vídeo).
O fato é: existe todo um processo antes que a escrita finalmente comece.
Você liga a câmera. Ajusta o ângulo. Grava o mesmo vídeo várias vezes. Depois o edita até caber naquele curtíssimo intervalo de tempo que o TikTok e o Instagram toleram.
Às vezes, você decide comprar equipamentos de gravação.
Uma câmera melhor. Um tripé. Algo que ajude a tornar o vídeo mais atraente e te ajudar a alcançar pessoas.
Tudo isso exige tempo. Exige dinheiro.
E nem todo mundo tem.
É por essas e outras razões que compartilhar o meu processo de escrita tem sido solitário — e a bomba perfeita para comparação.
Porque, ao mesmo tempo em que eu prezo muitíssimo pela minha privacidade e não tenho a menor intenção de expor a minha identidade, essa barreira — embora necessária — tem tornado esse compartilhamento dos bastidores do meu processo criativo um pouco espinhento.
Sinto que não consigo alcançar as pessoas da mesma forma que poderia alcançar se eu não fosse anônima, e sou dominada por uma comparação infinita com outras pessoas e pelo medo de que nunca irei para a frente se não me expor.
Isso, naturalmente, diminui um pouco o meu ânimo de compartilhar mais sobre o meu processo.
5. A estética da escrita também virou privilégio
E já que falei em dinheiro, não consigo ignorar que todo esse processo de divulgação passa por um filtro cruel e, muitas vezes, silencioso, da desigualdade social.
Como falar em divulgar o próprio livro, trazer uma estética atraente para as suas redes sociais, estar sempre presente, se você não tem tempo, não tem espaço, não tem dinheiro?
O BookTok e o Bookstagram podem reduzir perigosamente a nossa visão à ideia de que a maioria dos escritores têm poder econômico para bancar uma vida literária idealizada.
Uma estante grande e cheia de livros físicos (lembrando que poder comprar livros hoje é, muitas vezes, um luxo ao qual nem todos têm acesso), uma mesa linda e organizada, e o mais importante de tudo: tempo.
Tempo para produzir conteúdo literário.
Tempo para construir sua comunidade.
Tempo para escrever.
Esta não é a realidade de todos.
Muitas pessoas que sonham em publicar um livro ainda estão presas em seus trabalhos CLT, PJ ou outra coisa. Muitas ainda estão encarando uma jornada exaustiva de duas horas de ida e volta no transporte, ou precisam trabalhar para sustentar a família. Muitas estão desempregadas e ansiosas — como eu —, deprimidas, sem saber o que fazer, sem o apoio de familiares, de amigos.
Outras ainda moram com a família e não possuem a privacidade ou a liberdade necessária para produzir conteúdo como gostariam. Como vários influenciadores literários parecem ter.
Com frequência, essas pessoas não têm um espaço estético para divulgar em suas redes. Às vezes elas apenas têm algo mais simples.
Uma mesa, um caderno, um notebook…
… e um sonho.
Essa grande diferença pode dar vazão a um sentimento de ansiedade e comparação enorme que vai matando, aos poucos, a vontade do escritor de escrever, de ser reconhecido, de colocar sua história no mundo.
Porque, afinal, “se minha vida não parece esteticamente bonita o suficiente para aparecer nas redes sociais, ninguém vai se interessar pelo o que tenho a dizer.”
Era o que eu pensava há alguns anos atrás.
Quando eu morava em uma casa mais simples. Quando guardava meus livros em um cantinho de um guarda-roupa velho. Quando eu mal tinha um quarto para mim e não dispunha do conforto físico necessário sequer para dormir.
Hoje minha situação melhorou, felizmente. Mas não posso dizer por todos.
Ainda há muitas pessoas que, por trás da máscara de escritores, ainda estão tentando sair do lugar.
Ainda estão tentando se dar uma vida um pouco mais digna.
E nenhuma edição de redes sociais comporta esse tipo de realidade.
6. O marketing começou a competir com a escrita
O escritor que compartilha seu processo de escrita no ambiente digital está, de certa forma, direcionando horas de sua vida que poderiam ser dedicadas à escrita para divulgar antecipadamente o seu livro e despertar o interesse do leitor. No entanto, isso, em algum momento, acaba cobrando seu preço.
O pré-marketing drena mentalmente o escritor, a tal ponto que às vezes mal sobra tempo ou energia para escrever.
Em muitos casos, ele passa mais tempo editando um reels, planejando um conteúdo e tentando crescer nas redes sociais do que escrevendo o próprio livro.
No meio de milhares de histórias que surgem diariamente, a pressão para que sejamos vistos, para que nossos livros cheguem em nosso público, faz com que nos rendamos ao medo de desaparecer e nos adaptemos às réguas cruéis das redes sociais.
Paradoxal, não é? Mas é a realidade de muitos. A situação piora quando falamos dos escritores que dividem seu ofício de escrita com aquele que, de fato, paga as contas.
Normalmente um trabalho em horário integral.
As obrigações se multiplicam, o cansaço aumenta, e muitas vezes o escritor pensa em parar de escrever.
Além disso, esse tempo dedicado ao marketing, de certa forma, reduz o tempo que o escritor também precisa, em algum momento, dedicar ao seu projeto.
Um livro bem-escrito, bem-feito, exige tempo de estudo, de pesquisas, de lapidação, de reescritas. Como, então, equilibrar todo o processo de escrita, que vai além do mero ato de escrever, com a necessidade de divulgar o seu livro enquanto ele ainda está sendo escrito?
E não nos esqueçamos do nosso lazer. Ele é crucial para que possamos descansar a mente, praticar uma atividade física, ler um livro ou assistir a uma série em paz e, quem sabe, encontrar novas inspirações para o nosso próprio projeto. Pois sim, até nós precisamos descansar — e muito.
Mais de uma vez, já li por aí que, nestes tempos loucos de redes sociais, em que tudo está cada vez mais acelerado e as exigências de publicações mais frequentes aumentam, certos escritores, mas, principalmente, escritoras — as que vivem e dependem da renda de seus livros — não aguentaram o excesso de pressão e tiveram burnout.
Ou temeram não lidar com a pressão de produzir constantemente.
É real, os escritores estão exaustos.
E, mesmo assim, qual a outra alternativa além de continuar até fazerem com que seus livros cheguem aos leitores certos?
É uma luta ingrata esta de tentar fazer nosso livro ser lido no meio de milhares que surgem todos os dias, e você deve fazer o impossível só para que ele tenha a mínima chance de ser visto e, talvez, lido por alguém.
O maior sintoma de tudo isso? A ansiedade.
7. Algumas histórias precisam nascer longe da vitrine
Eu sei: nestes tempos de hoje, encontrar o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal, a escrita, o marketing literário e o descanso é um tanto desafiador.
Por isso, acredito que o primeiro passo começa com nós, escritores, nos permitindo errar no escuro e não nos forçarmos tanto a nos expor e compartilhar cada mínimo passo do nosso processo.
E isso vale para mim também.
Nós merecemos — e precisamos — de um momento só nosso para tentar, errar, sem que tudo se torne necessariamente uma vitrine para as redes sociais.
Às vezes, nós, e nossos livros, realmente precisamos apenas disso: de um espaço onde podemos fracassar — e sermos um fracasso — sem temermos ser julgados por isso.
Porque, no final das contas, nenhum livro nasce sem uma certa dose de isolamento e silêncio.
NOTAS ALEATÓRIAS:
📙 Voltei a escrever meu livro de fantasia sombria com romance depois de meses sem nem conseguir encostar nele. Após altas crises existenciais, inseguranças, procrastinação e cansaço em função de trabalho, retomei a escrita determinada a pelo menos finalizar o primeiro rascunho. Pois bem. Revisei algumas coisas do meu planejamento, estabeleci as bases dos três atos, montei uma escaleta de capítulos mais sólida para os dois primeiros atos (me dei mais liberdade para escrever o terceiro) e resolvi escrever todo dia. Pelo menos, de segunda a sexta, eu escrevo.
Resultado: dentro de um mês e pouco, passei da casa de 26k de palavras para impressionantes (para mim) 43k. Mas ainda não cheguei na metade da história. Em dúvida se estou escrevendo um monstrinho, um monstro ou um monstrão. Veremos.
😬 Admito que estou realmente em pânico com a ideia de escrever um livro. Quer dizer, veja bem: o problema não é nem escrever, mas a possibilidade de mostrar este livro para o mundo. Se bem me conheço, vou levar anos até terminar ele, e mais anos até publicá-lo. Tento pensar que estou escrevendo esta história para mim, e me tranquilizar que vou trabalhar muito nela antes de sequer ousar colocar ela no mundo. Isso me acalma um pouco.
📚 Leituras do momento: Sussurros Ancestrais (físico), Marés de Vingança (digital), Entrevista com o vampiro mafioso (digital) e Sobre a Escrita — A Arte em Memórias (físico.) Vivo alternando entre uma leitura e outra, uma hora lendo no físico, outra no digital.
🎵Dica de música que me deixou viciada recentemente: S.O.S - Apocalyptica.
Ah, e se quiser acompanhar um pouco o meu processo de escrita ou apenas papear, pode me chamar no meu Insta.
É isso e até uma próxima! ^^


Algo que fez eu me afastar um pouco desse cenário literário foi o quão de fato elitista esse mundo é. Você precisa de dinheiro para divulgar, para marketing, tráfego pago. Precisa ir aos eventos, e isso custa passagem, comida, roupa, estadia...
Ai de você se morar em algum lugar com poucos eventos.
Infelizmente, pra vender livros hoje em dia, você precisa ou de uma rede social muito movimentada (o que até nisso gente com dinheiro começa na frente) ou dinheiro o suficiente pra não precisar se importar com isso.
Hoje em dia escrevo sem me colocar essa pressão toda. Posto um vídeo aqui e ali no TikTok, por diversão mesmo, escrevo meus livros, leio. Se eu voltar a me cobrar igual me cobrava na época em que escrevia meu primeiro livro, minha sanidade não aguentaria muito mais hahah.
É tanta coisa que um escritor precisa fazer que sobra pouco tempo para se dedicar à escrita.
Mas os antigos mestres não eram muito diferentes; vide a quantidade deles que trocavam correspondência e enviavam cartas a revistas e periódicos.
Mudou a mídia, mas a necessidade de divulgação ainda permanece.